sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O pacto

Não eras, meu amigo, o amor o que importava?
Deveras não era ele a plenitude da vida
E por ele não devia eu dar tudo e em tudo arriscar-me?
Se a força da juventude me fizesse voar não deveria eu
O amor buscar e em tudo me entregar e perseguir
E contra tudo lutar e dá-me sem medo a esse amor?
Não eras meu amigo o amor o que importava?
Porque, então, é amargo o meu ventre como fel?
E minha boca azeda tem sede e bebe e não sacia sua sequidão?
Os meus pés cansaram e não querem mais correr
Pois a batalha os exauriu e buscar foi em vão.
Meu coração ferido a ferro está ébrio e não mais se renova
Deu-se ao vício, incorrigível, irrecuperável sua vista turva
Não mais quer crescer, não mais meu amigo, quer sofrer.

A verdade tem o caráter do absoluto e a esperança do eterno
Tornam a noite em dia, o choro em riso:
E a vida flui como águas perenes que irrigam esse deserto.
Tornam a noite em estrelas, o choro em lágrimas de prazer:
E a vida é fogo que ilumina os olhos e aquece mórbido inverno.
Porventura esquecerás dessa vida e conseguirás viver?
Como uma candeia nada é se não há fogo que a faça queimar
Teus olhos emudeceriam e teu corpo amorteceria em silêncio
Se deixasses de perseguir, meu amigo, fogo para o teu altar.
Tu dizes que não mais quer, que teus pés cansaram
E falas que em tudo buscastes e nada encontrastes
Pois o teu ébrio coração ferido não mais quer sofrer.
Porventura, meu amigo, que emana do teu corpo ao chorar?
Podes tu renegar a vida, arrastar-se sem forças pelo teu deserto?

Permitam que também eu fale ao meu desinquieto amigo
Pois ele amuado em cega obstinação esqueceu do pacto
Que quando ainda jovens fizemos com coragem atroz:
“A prisão é liberdade! Na morte ou fracasso temos um riso fácil!”
A incoerência não assusta, nem o desafio amedronta nossa alma.
Então o que fizeste agora? Meu amigo, que loucura o persuadiu?
Que medo o fez covarde, foi força ou fraqueza que o fez cair?
Perdoe minha rudeza, sabes que sou bronco caro amigo.
Sabes também que não há nada que impeça a vida de jorrar
Nem milhares de muralhas, nem o não que pensas lhe dar
Então não pense como tolo que ganhas ao fazer-se perdedor.
Se enriqueceres sob as sombras seu ouro será para as traças
Se abrires tuas portas e tuas dádivas deixares ir:
“A prisão é liberdade! Na morte ou fracasso temos um riso fácil!”.

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