sexta-feira, 15 de outubro de 2010

O fundo da Alma

Além do horizonte dourado jaz o futuro sonhado,
Os olhos ansiosos do menino acabrunhado sobre a janela aberta
Que revela o mundo ao mundo sem nenhum chilique
Da mulher caseira de cabelos presos e jeito leve,
Compondo a paisagem do dia, do agora louco
Como miragem que vive e dirige o rumo
Da moça feita de desejos ardentes que inundam
Os olhos e contorce os ferrolhos da urbana
Classe jovem, que é espírito infinito e espera
O futuro que é o próximo segundo, que nem mesmo
O fundo da alma pode revelar ao mundo.

Segredos tórridos de uma melancólica história de amor,
Além dos olhos fechados que guardam o querer
Desprezam o poder fantasiando um caminho,
Que é o mundo nas veias do fundo do ser
Da mente intensa do velho mestre de vasta história,
Mesmo em pouca existência.
É a adulta mulher de olhos criança que vêem detalhes
E anseiam atrás das grades um momento único lúcido,
Em loucura imersa tocar o físico e se fechar
No antro animal do homem que deseja o céu
E se ruma ao fundo do ser e arrebenta os limites
Ao chegar ao cume do mundo no antro ofego,
Vasto universo que revela o esqueleto do ser
Que domina a terra e se perde na sua loucura em procura intensa,
Ao horizonte dourado no afago quente,
Num universo totalmente inconsciente.

o Bocudo

Uma das muitas coisas que encontrei numa antiga agenda esquecida entre coisas velhas.

o Bocudo

Era pobre, pobre e feio, a pobreza o enfeiara,
era feio, mas espero como um coelho.
Ser como um coelho nada adiantou
continuou feio, sujo e mudo.
Pensou então: ser coelho é feio
Serei então bocudo. E o bocudo colocou a
boca pra defender os sujos, os mudos e ele.
Chamaram a polícia, trancaram o bocudo.
E o Bocudo ficou mudo.
Ser bocudo era crime, condenar
o crime é crime (não sabia?!...).
E os sujos, os mudos e os puros
esqueceram que um dia
conheceram um bocudo.
Mas seus avós contavam
de um bocudo puro que foi trancado
para ser mais um homem mudo.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

ela me lembra a Maitê


Ela me lembra a Maitê.
Pode ser o seu indelével frescor de menina
Ou talvez pela sofisticação que nela se vê
Mas é provável que seja outra coisa que me fascina.

A paixão à flor da pele além do que se pode ver
O calor do desejo acedendo seus olhos cor de mel
que brilham com mil mistérios e é bom crer
pois seu sorriso esconde um inferno e todo o céu.

Tento em vão impedir cada nervo meu de estremecer
À suave provocação, sensual visão dela naquele jeans
E perco-me no perfume seu que incita meu querer.

Seus sapatos vermelhos transtornam meu olhar
E seu cheiro me enlaça como seu sorriso faz enrubescer
Te olho abobalhado e penso em tudo, menos na Maitê.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

uma raiva

uma raiva
inquietação
estado constante de insatisfação
uma vontade de sair
gritar (gritar não)
simplesmente sair e mandar a merda
minha sacrossanta consciência
e fazer o mal que quero
evitar o bem que de mim esperam.

Parabéns Lennon


Imagine que não existem países

Não é difícil fazê-lo.

Nada pelo que matar ou morrer

Tampouco religiões.

Imagine todos os povos.

Vivendo em paz

Você até pode dizer que sou um sonhador.

Mas não sou o único.

Espero que algum dia você se junte a nós

E o mundo, então, será como um só.

Imagine que não existem posses.

Eu me pergunto se você consegue

Não precisar de ganância ou fome

Uma fraternidade humana

Imagine todos os povos

Partilhando o mundo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Adeus

"Adeus" - A palavra não saía dos lábios, as bocas que tanto haviam se beijado se recusavam à despedida, os olhares se devoravam, as mãos ansiavam por dedos entrelaçados... mas mesmo assim a palavra estava ali - "adeus".
A flor que ele trouxe era o último presente, sempre havia flores pelo caminho quando ele ia encontrá-la, sempre havia o sorriso dela ao vê-lo com os braços cheios das mais variadas flores e ramos, sempre havia perfume em seu ninho de amor.
A palavra que sufocava e umedecia os olhos sem ser uma vez sequer pronunciada causava um enorme silêncio, um silêncio cheio de gestos vagarosos e olhares demorados como que gravando para sempre na memória cada detalhe.
Era estranho, porque seus encontros sempre estavam cheios de palavras, a poesia era tamanha, as músicas que sussurravam no ouvido, os sorrisos que ecoavam pelo vale. Deitados olhando o céu ele se deliciava com a voz dela falando e falando e falando, fazendo-o sorrir e sonhar de olhos abertos ao som daquela doçura que enchia seu mundo.
Mas hoje - "adeus" - essa única palavra sem ser ouvida causava uma imensa dor enquanto ele a abraçava aspirando o perfume em seus cabelos e tentava não olhar o horizonte para não adiar nem em pensamento o momento de vê-la desaparecer por entre as árvores levando na mão sua derradeira flor.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Teu lado feminino

Teu lado feminino me erotiza:
são belos, sensuais e muito caros
certos instantes gostosos, em que te encaro
menos como homem e mais como menina:
quando passas teus cremes para a pele,
ou pões o avental pra cozinhar,
ou quando em mim te esfregas
até gozar os teus gozos sem fim,
ou quando tuas mãos, leves e lésbicas,
desabam como plumas sobre mim.

Leila Míccolis
imagem de Leonel Silva

sexta-feira, 1 de outubro de 2010